domingo, 5 de junho de 2011

pelo direito de aprender

05.06.11 às 00h37
Pelo direito de aprender
Cotas e programas de apoio derrubam mitos e levam educação e futuro a milhares de jovens. C e D já são maioria na universidade
POR ÉLCIO BRAGA
Rio - A resposta simples e desanimadora mudou destinos. Início de 1990, salão da Igreja da Matriz, em São João de Meriti: cem jovens negros e carentes falavam sobre a fé. Por curiosidade, frei David Raimundo dos Santos perguntou quantos queriam fazer faculdade. "Apenas dois irmãos confessaram a intenção, obrigados pela mãe, agraciada por bolsas na instituição em que trabalhava como servente", lembra.
O episódio levou à criação da Educafro, influente entidade empenhada na democratização do acesso à faculdade pública. A ideia tornou o Rio mais justo e se espalhou pelo Brasil. Nos últimos cinco anos, mais negros entraram na universidade do que em todos os séculos anteriores somados.

Luana Castro: “Sem a cota, meu futuro seria incerto. Passei para Direito. Meu pai e minha mãe choraram muito” Foto: Paulo Araújo / Agência O Dia
Multidão de carentes passou a enxergar brecha no muro da faculdade. Política de cotas, pré-vestibulares comunitários e Programa Universidade para Todos (ProUni), do Governo Federal, criaram novo cenário. As classes C e D se tornaram maioria na universidade: 72,4%. “Diziam que eu, merendeira, filha de lixeiro, não podia fazer faculdade”, conta Therezinha Mello, 71, formada há seis em Serviço Social.
Contrários à ideia argumentavam que cotistas não conseguiriam acompanhar a turma. Pesquisa entre 2003 e 2006 mostrou desempenho do cotista superior em 29 dos 48 cursos na UERJ. "A minha grande alegria é que as cotas derrubaram a máscara das universidades públicas brasileiras", diz Frei David.

Fonte: Jornal O Dia - RJ

PERGUNTAR OFENDE?

Perguntar ofende?
Gostaria que alguém me respondesse.
Quando o presidente Lula bebia seus drinques era chamado de cachaceiro de forma impiedosa, muito embora se valesse dos seus direitos e de bebidas legalizadas e normalmente usadaS por muitos dos críticos burgueses. A candidata Dilma, hoje presidenta, foi altamente criticada por inferências a ela como defensora do aborto, sendo verdadeiramente satanizada. A mídia não perdoou!!! Agora vem o ex FHC defendendo a discriminalização da maconha como se bandeira de salvação nacional. A pergunta é a seguinte: para aqueles mesmos burgueses será ele um maconheiro ou traficante, por isso? Com a palavra a burguesia que tanto alfinetou e penalizou os dois primeiros.
Joel de Oliveira

Uma reflexão sobre as cotas nas universidades

Brasília, 27 de dezembro de 2008


Uma reflexão sobre as cotas nas universidades.

Acho de um cinismo exagerado os pronunciamentos contras as cotas para negros nas universidades. Não faltam aqueles que vinculem o assunto à pobreza, aquela mesma pobreza que não passou pela imposição do escravagismo nem pela discriminação pela cor da pele. Até recentemente os negros não podiam usar elevadores sociais nem freqüentar uma salão de jantar, um restaurante ou um baile. Até mesmo clubes de futebol faziam restrições à cor da pele. Então não estamos querendo nos nivelar à pobreza mais, sim, ao direito universal do ensino em igualdade de condições. Os pobres estão nos orfanatos mas os adotados são, sempre, os de pele clara e olhos azuis, verdes, amarelos, desde que sejam brancos. Será que os críticos das cotas não vêem isso? Como remeter a questão para o campo da pobreza? Pobreza se resolve com dinheiro. Preconceito racial (ou não, dêem o nome que quiserem!) se resolve com acesso à informação, à visibilidade, à universidade. É tão incoerente a posição dos críticos que se esquecem eles que as universidades públicas, tais como as escolas básicas, são nichos acolhedores dos menos favorecidos aí, sim, incluídos os pobres que, aí também se brancos, são "melhores"; são aceitos com mais carinho; são colocados até no colo das professoras!!!.
Então as cotas para negros não podem ser confundidas com pobreza mas com a objetiva discriminação pela cor da pele.
Espero que ao colocarem a causa do negro junto com a da pobreza não estejam querendo perpetrar mais uma maldade subliminar no sentido de que o lugar do negro é na pobreza eterna!!! Não é questão cientificista. É questão de observação empírica mesmo da realidade. Quem duvidar disso que visite os gabinetes de parlamentares, das empresas privadas, dos dirigentes públicos que constatará que nesses espaços, os negros e negras não se fazem presentes mesmo que seja para recepcionista ou secretária, cujo padrão esteriotipado de beleza não diz respeito às detentoras da pele negra, ainda que sejam, as ocupantes dos cargos e posições, pobres com a "atenuante" da pele clara e, de preferência de bonito corpo, o que bem demonstra a concepção vigente do que vem a ser um perfil profissional...
E por que isto acontece? Porque os detentores do poder são brancos e não vão abrir mão de colocar os seus amigos e parentes brancos a benefício de um negro ou negra que, aliás, não têm nem a quem pedir porque os "seus iguais" estão na mesma situação de penúria. A propósito o STF determinou a demissão de parentes nos gabinetes públicos. Vamso conferir quantos negros se enquadram nesses casos? A conclusão é simples, não é. Então, está na hora de tirar as máscaras e deixar de transferir o problema racial para os negros pelo simples fato de quererem estes o direito constitucional de igualdade de acesso às universidades. Esses mesmos críticos não se atém às cotas econômicas - reais, porém não institucionalizadas formalmente - que permitem que o cidadão aquinhoado financeiramente freqüente um curso preparatório cariíssimo e vá disputar vaga nas universidades públicas "em igualdade de condições" com os miseráveis alunos das escolas públicas miseráveis, destruídas pelo interesse econômico dos donos de escolas que fazem ou passam a fazer a política pública de ensino e educação.
Ora, se as cotas não resolvem, o que resolve então? Onde estão as soluções que nunca foram apresentadas nem mesmo dentro deste debate de cotas? Onde estão os antropólogos e doutores resistentes às cotas que não observam o quadro geral de penúria do povo negro nem oferece alternativa de solução eficaz? Quando as cotas forem soterradas - estão caminhando para isso as discussões - todos recolherão seus flaps e silenciarão como aeronave no pátio de suas satisfações atendidas. O fato é que as cotas são como o império da lei que não precisaria existir se todos cumprissem com o seu dever. Os poderosos estão de costas viradas para o problema porque é cômodo não se ocuparem das dificuldades alheias que "não lhes pertence" - mesmo que sejam representantes do povo - mas têm que estar atentos para não verem diminuídos o quinhão que julgam lhes caber na divisão do bolo social e no pagamento do débito para com aquele negro que um dia foi enjaulado em um navio negreiro para produzir riquezas nas terras brasileiras, sob os auspícios de chibatadas,humilhações e mutilações físicas e morais (e aí não havia o quesito raça porque negro não era gente!!! E continua não sendo, talvez para muitos.)e viver na miséria eterna como verdadeiros "párias do estigma branco" como se nada merecesse pelo sacrifício a que fora submetido. É, sim, um resgate da dignidade da raça negra tal como aqui chegou e se mantém pela visão social. Se antes existia raça para ser sacrificada, porque agora não existe mais? Então vamos rever a história e ao revê-la daremos de cara com a dura realidade de que a supremacia branca deste nosso País é quem fez e faz a implementação do racismo em nossas terras brasileiras. Não são as nossas cotas...
Portanto, é hora de se ter vergonha na cara e discutir as cotas como elas merecem ser discutidas: com respeito, com conhecimento de causa, sem interesse pessoal ou subliminar inconfessável, sem cooptação de idéias de potenciais negros ou negras revivenscendo o escravagismo das migalhas e sem medo de se descobrir o potencial intelectual da negritude que não quer nada além do que lhe é devido, sem pensar em inversão dos papéis até então vividos por eles. O negro quer igualdade e fraternidade entre todos, mas é preciso a mudança dos perfis humanos e antropológicos vigentes de alguns profissionais do ramo.
Vejam, senhoras e senhores, as bancas de advogados, os plenários de discussões de questões públicas, as fotos oficiais, os quadros dos oficiais generais nos desfiles de 7 de setembro, os personagens de novelas e apresentadores de programas de TV, Palestrantes de qualquer jaez e identifiquem a cor deste "Brasil miscigenado". Se restar dúvida, por questão de miopia da conveniência, visite os presídios e observe o uso das algemas policiais. E se continuar existindo dúvida, peça a um policial para identificar o bandido que ele indicará um negro, ainda que este tenha sido a vítima.
Cotas são meio e não fim!
O tempo foi suficiente para que a mudança viesse pelos meios até então disponíveis. Se não vieram; se não promoveram... cotas neles!!!
Axé!!!
Joel de Oliveira
Brasília/DF

Obs:
Em um Parlamento em que uma parlamentar se escandaliza por ser chamada de feia e se sente ofendida, repudiar as cotas é no mínimo hilário. Mais hilário ainda quando alguns pseudo-negros(?) se manifestam contra as cotas por não serem solução e por "diminuírem(?)" os negros pois estes não sabem o que é somar nem diminuir. Estes ganham espaço na mídia. Por quê será???
Mirian Leitão,
Li com atenção o seu texto abaixo e fiquei preocupado que você pudesse estar sonolenta e imaginando coisas, que são da sua cabeça, quando o escrevia, tamanha a distância entre o relato e o posicionamento dos plantonistas anticotas universitárias, pro exemplo. Esses sempre afirmam que a raça é HUMANA quando precisam defender o posicionamento contra aquilo que viabiliza e viabilizará o negro na universidade: as ações afirmativas. Eles sempre dizem a pulmões abertos que só existe uma raça: a humana. E aí o seu texto de me deixa numa enorme dúvida. Ou Mírian pirou ou eles são muito canastrões e cafajestes, para não dizer sem-vergonhas. Ora, se a raça única é humana, e é, porque então somente os negros foram tratados dessa forma? Lembrei-me neste momento que participei do documentário RAÇA HUMANA esbravejando quanto a postura do autor de um determinado livro que convidou a sociedade para o lançamento do livro e debate mas não deixou ninguém da platéia se manifestar porque o grupo de pretos que lá se encontrava foi visto como fascista, mais um estigma para os “criminalizar” pelo simples fato de ser um grupo organizado que queria falar para evitar a legitimação de um posicionamento orquestrado pelo autor do livro e seus asseclas que, agora imagino, sabia da intenção da TV Câmara em realizar o documentário e seria bom o silêncio dos covardes para inferirem que todos estavam em consonância com aquele absurdo lançamento de livro na livraria cultura. Feita esta reflexão fico com o seu texto por entender que a segunda opção é a tentativa de manutenção do status quo dos privilegiados financeiros, cujo status conta com o beneplácito de alguns parlamentares que ombrearam o autor do livro naquela oportunidade e que, felizmente, fiz com que eles observassem que o povo negro descende de escravos mas não mais se submete a tal regime miserável. Como abomino a inverdade, digo que o seu texto é um primor histórico em poucas linhas que poderá advertir os incautos que lutam contra as cotas e oportunidades de visibilidade do povo negro que não seja na “exumação” de corpos, ainda que movida pelo acaso. A minha ironia faz parte da nossa estratégia de abordagem para desespero deles. Este foi mais um “trabalho” do Abdias Nascimento a favor da causa do povo negro, ainda que post mortem.
Obrigado Mirian Leitão! Você está cada vez mais lúcida.
Vamos em frente!!!
Joel de Oliveira
Brasília/DF


Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel -
5.6.2011 6h00m
COLUNA NO GLOBO
Tropeço na História
Foi no antigo Cais do Valongo, perto das pedras que foram descobertas recentemente nas escavações para a recuperação do Centro do Rio, a homenagem a Abdias Nascimento, sete dias após a sua morte. No Valongo os escravos desembarcavam e eram depositados nos armazéns que ficavam na atual Rua Camerino para serem pesados, preparados e vendidos.
O lugar impõe respeito. É impossível não sentir o peso dos dramas vividos ali. Que a cidade possa guardar bem os pontos que estavam encobertos pela nossa dificuldade de olhar o passado com sinceridade e reflexão. Lá, líderes de religiões diferentes misturaram palavras e evocações, junto com as de autoridades como o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa.
O ministro chegou com bengala e sinais de que seu problema de coluna se agrava. Avisou que enfrentará a limitação o mais breve possível. Que consiga. Misturado aos amigos e admiradores de Abdias foi chamado para falar. O ministro disse que Abdias era único. De fato, é difícil pensar em substituto. Aos 97 anos ele carregava a força da coerência com que combateu o racismo e o dom de unir pessoas com pensamentos diferentes. Abdias trafegava por tantas áreas da cultura e do pensamento que é difícil defini-lo: ele foi jornalista, autor de teatro, pensador, cineasta, político, militante da causa negra.
O cais do Valongo fala por si, e a dificuldade de vê-lo, também. As pedras que reapareceram nas escavações foram encontradas por acaso. O mesmo acaso que reencontrou o cemitério dos pretos novos na Gamboa, onde eram jogados os corpos ou moribundos que não tinham suportado a longa e dolorosa travessia do mar. O que intriga é esse tropeço na História. Ela deveria ser buscada e reverenciada como parte do entendimento do Brasil sobre si mesmo e não ter que submergir aos pedaços numa obra no porto, ou numa reforma de uma casa particular como a que permitiu o encontro de pedaços do cemitério. Foram 350 anos os que o país viveu sob a escravidão. Essa iniquidade ocupou a maior parte dos 511 anos desde a chegada dos portugueses. Felizmente estuda-se mais hoje esse período que foi soterrado de propósito. Não ver é mais confortável, mas o melhor é sempre admitir, entender e superar.
Anoitecia no sítio arqueológico do Valongo e aquele grupo pequeno de pessoas tentava ouvir as palavras de homenagem a Abdias no meio do barulho do rush do Centro. Elisa Larkin, a viúva, havia me dito: aqui não era o melhor lugar? Era.
Desde que Mary Karasch, a historiadora americana, escreveu “A vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850)”, um livro seminal, todos os que se interessam pelo tema, e os jovens historiadores, aprenderam que há vários caminhos que levam às informações sobre o que se passou no Centro velho do Rio. A cidade era porta de entrada de escravos que ficavam nas cidades e dos que iam trabalhar nas plantações de café e cana-de-açúcar ou para as minas de Minas Gerais. O Valongo era um cais de desembarque e o maior mercado de escravos do Brasil. Até 1830 eles eram desembarcados à luz do dia e colocados nos depósitos para ganhar algum peso para serem vendidos. Depois de 1830, com o tráfico proibido para inglês ver, eles eram tirados à noite furtivamente dos navios e os depósitos deixaram de ter janela, o que piorou muito. O cálculo de Karasch é que um milhão de africanos entraram pelo Rio.
O que a cidade deve fazer com esse pedaço redescoberto do cais é preservá-lo para contar essa história. Há hoje estudos valiosos. Há relatos de viajantes que se impressionavam pelas cenas descritas. Um deles, C. Brand, foi ao mercado do Valongo em 1827 e descreve assim o que viu: “A primeira loja de carne em que entramos continha cerca de 300 crianças de ambos os sexos: o mais velho poderia ter 12 ou 13 anos e o mais novo não mais de seis ou sete anos.”
Durante muito tempo o Brasil não estudou essa página da História porque criou-se o mito de que Rui Barbosa teria queimado todos os documentos. Como se sabe hoje, ele queimou os documentos tributários diante da enorme pressão dos escravistas para serem indenizados. Há inúmeras outras pistas pelas quais os historiadores estão escavando esse passado. Karasch descobriu muitas informações nos registros da Santa Casa de Misericórdia. Os donos de escravos mandavam para lá os que estavam morrendo para não ter despesa com o funeral. A Santa Casa registrava idade, de onde tinham vindo, causa da morte. Morriam principalmente de tuberculose. Há outras fontes como os arquivos Nacional, da Cidade e do Itamaraty, registros policiais, comerciais, os jornais da época, os relatos de viajantes. A inglesa Maria Graham, em 1821, encantou-se com a beleza do Rio na chegada à baía: “A cena mais encantadora que a imaginação pode conceber.” No Valongo, relata que fez um gesto de carinho aos jovens negros e eles retribuíram com sorrisos. Há inúmeros relatos dos viajantes, preciosas reportagens. A História vai retornando.
De manhã eu tinha ido à Casa de Rui Barbosa. Lá andei com temor reverencial pela multidão de livros organizados e li com admiração as frases de uma exposição. Numa delas, Rui indeferia o pedido em 1890 dos ex-donos de escravos de que se criasse um banco para indenizá-los pelo prejuízo com a abolição. “Mais justo seria e melhor se consultaria o sentimento nacional se se pudesse descobrir meio de indenizar os ex-escravos” (veja em meu blog o despacho do Rui). O século XIX passeava na minha cabeça enquanto eu vi a noite chegar olhando as pedras do Valongo.