Brasília, 27 de dezembro de 2008
Uma reflexão sobre as cotas nas universidades.
Acho de um cinismo exagerado os pronunciamentos contras as cotas para negros nas universidades. Não faltam aqueles que vinculem o assunto à pobreza, aquela mesma pobreza que não passou pela imposição do escravagismo nem pela discriminação pela cor da pele. Até recentemente os negros não podiam usar elevadores sociais nem freqüentar uma salão de jantar, um restaurante ou um baile. Até mesmo clubes de futebol faziam restrições à cor da pele. Então não estamos querendo nos nivelar à pobreza mais, sim, ao direito universal do ensino em igualdade de condições. Os pobres estão nos orfanatos mas os adotados são, sempre, os de pele clara e olhos azuis, verdes, amarelos, desde que sejam brancos. Será que os críticos das cotas não vêem isso? Como remeter a questão para o campo da pobreza? Pobreza se resolve com dinheiro. Preconceito racial (ou não, dêem o nome que quiserem!) se resolve com acesso à informação, à visibilidade, à universidade. É tão incoerente a posição dos críticos que se esquecem eles que as universidades públicas, tais como as escolas básicas, são nichos acolhedores dos menos favorecidos aí, sim, incluídos os pobres que, aí também se brancos, são "melhores"; são aceitos com mais carinho; são colocados até no colo das professoras!!!.
Então as cotas para negros não podem ser confundidas com pobreza mas com a objetiva discriminação pela cor da pele.
Espero que ao colocarem a causa do negro junto com a da pobreza não estejam querendo perpetrar mais uma maldade subliminar no sentido de que o lugar do negro é na pobreza eterna!!! Não é questão cientificista. É questão de observação empírica mesmo da realidade. Quem duvidar disso que visite os gabinetes de parlamentares, das empresas privadas, dos dirigentes públicos que constatará que nesses espaços, os negros e negras não se fazem presentes mesmo que seja para recepcionista ou secretária, cujo padrão esteriotipado de beleza não diz respeito às detentoras da pele negra, ainda que sejam, as ocupantes dos cargos e posições, pobres com a "atenuante" da pele clara e, de preferência de bonito corpo, o que bem demonstra a concepção vigente do que vem a ser um perfil profissional...
E por que isto acontece? Porque os detentores do poder são brancos e não vão abrir mão de colocar os seus amigos e parentes brancos a benefício de um negro ou negra que, aliás, não têm nem a quem pedir porque os "seus iguais" estão na mesma situação de penúria. A propósito o STF determinou a demissão de parentes nos gabinetes públicos. Vamso conferir quantos negros se enquadram nesses casos? A conclusão é simples, não é. Então, está na hora de tirar as máscaras e deixar de transferir o problema racial para os negros pelo simples fato de quererem estes o direito constitucional de igualdade de acesso às universidades. Esses mesmos críticos não se atém às cotas econômicas - reais, porém não institucionalizadas formalmente - que permitem que o cidadão aquinhoado financeiramente freqüente um curso preparatório cariíssimo e vá disputar vaga nas universidades públicas "em igualdade de condições" com os miseráveis alunos das escolas públicas miseráveis, destruídas pelo interesse econômico dos donos de escolas que fazem ou passam a fazer a política pública de ensino e educação.
Ora, se as cotas não resolvem, o que resolve então? Onde estão as soluções que nunca foram apresentadas nem mesmo dentro deste debate de cotas? Onde estão os antropólogos e doutores resistentes às cotas que não observam o quadro geral de penúria do povo negro nem oferece alternativa de solução eficaz? Quando as cotas forem soterradas - estão caminhando para isso as discussões - todos recolherão seus flaps e silenciarão como aeronave no pátio de suas satisfações atendidas. O fato é que as cotas são como o império da lei que não precisaria existir se todos cumprissem com o seu dever. Os poderosos estão de costas viradas para o problema porque é cômodo não se ocuparem das dificuldades alheias que "não lhes pertence" - mesmo que sejam representantes do povo - mas têm que estar atentos para não verem diminuídos o quinhão que julgam lhes caber na divisão do bolo social e no pagamento do débito para com aquele negro que um dia foi enjaulado em um navio negreiro para produzir riquezas nas terras brasileiras, sob os auspícios de chibatadas,humilhações e mutilações físicas e morais (e aí não havia o quesito raça porque negro não era gente!!! E continua não sendo, talvez para muitos.)e viver na miséria eterna como verdadeiros "párias do estigma branco" como se nada merecesse pelo sacrifício a que fora submetido. É, sim, um resgate da dignidade da raça negra tal como aqui chegou e se mantém pela visão social. Se antes existia raça para ser sacrificada, porque agora não existe mais? Então vamos rever a história e ao revê-la daremos de cara com a dura realidade de que a supremacia branca deste nosso País é quem fez e faz a implementação do racismo em nossas terras brasileiras. Não são as nossas cotas...
Portanto, é hora de se ter vergonha na cara e discutir as cotas como elas merecem ser discutidas: com respeito, com conhecimento de causa, sem interesse pessoal ou subliminar inconfessável, sem cooptação de idéias de potenciais negros ou negras revivenscendo o escravagismo das migalhas e sem medo de se descobrir o potencial intelectual da negritude que não quer nada além do que lhe é devido, sem pensar em inversão dos papéis até então vividos por eles. O negro quer igualdade e fraternidade entre todos, mas é preciso a mudança dos perfis humanos e antropológicos vigentes de alguns profissionais do ramo.
Vejam, senhoras e senhores, as bancas de advogados, os plenários de discussões de questões públicas, as fotos oficiais, os quadros dos oficiais generais nos desfiles de 7 de setembro, os personagens de novelas e apresentadores de programas de TV, Palestrantes de qualquer jaez e identifiquem a cor deste "Brasil miscigenado". Se restar dúvida, por questão de miopia da conveniência, visite os presídios e observe o uso das algemas policiais. E se continuar existindo dúvida, peça a um policial para identificar o bandido que ele indicará um negro, ainda que este tenha sido a vítima.
Cotas são meio e não fim!
O tempo foi suficiente para que a mudança viesse pelos meios até então disponíveis. Se não vieram; se não promoveram... cotas neles!!!
Axé!!!
Joel de Oliveira
Brasília/DF
Obs:
Em um Parlamento em que uma parlamentar se escandaliza por ser chamada de feia e se sente ofendida, repudiar as cotas é no mínimo hilário. Mais hilário ainda quando alguns pseudo-negros(?) se manifestam contra as cotas por não serem solução e por "diminuírem(?)" os negros pois estes não sabem o que é somar nem diminuir. Estes ganham espaço na mídia. Por quê será???
Uma reflexão sobre as cotas nas universidades.
Acho de um cinismo exagerado os pronunciamentos contras as cotas para negros nas universidades. Não faltam aqueles que vinculem o assunto à pobreza, aquela mesma pobreza que não passou pela imposição do escravagismo nem pela discriminação pela cor da pele. Até recentemente os negros não podiam usar elevadores sociais nem freqüentar uma salão de jantar, um restaurante ou um baile. Até mesmo clubes de futebol faziam restrições à cor da pele. Então não estamos querendo nos nivelar à pobreza mais, sim, ao direito universal do ensino em igualdade de condições. Os pobres estão nos orfanatos mas os adotados são, sempre, os de pele clara e olhos azuis, verdes, amarelos, desde que sejam brancos. Será que os críticos das cotas não vêem isso? Como remeter a questão para o campo da pobreza? Pobreza se resolve com dinheiro. Preconceito racial (ou não, dêem o nome que quiserem!) se resolve com acesso à informação, à visibilidade, à universidade. É tão incoerente a posição dos críticos que se esquecem eles que as universidades públicas, tais como as escolas básicas, são nichos acolhedores dos menos favorecidos aí, sim, incluídos os pobres que, aí também se brancos, são "melhores"; são aceitos com mais carinho; são colocados até no colo das professoras!!!.
Então as cotas para negros não podem ser confundidas com pobreza mas com a objetiva discriminação pela cor da pele.
Espero que ao colocarem a causa do negro junto com a da pobreza não estejam querendo perpetrar mais uma maldade subliminar no sentido de que o lugar do negro é na pobreza eterna!!! Não é questão cientificista. É questão de observação empírica mesmo da realidade. Quem duvidar disso que visite os gabinetes de parlamentares, das empresas privadas, dos dirigentes públicos que constatará que nesses espaços, os negros e negras não se fazem presentes mesmo que seja para recepcionista ou secretária, cujo padrão esteriotipado de beleza não diz respeito às detentoras da pele negra, ainda que sejam, as ocupantes dos cargos e posições, pobres com a "atenuante" da pele clara e, de preferência de bonito corpo, o que bem demonstra a concepção vigente do que vem a ser um perfil profissional...
E por que isto acontece? Porque os detentores do poder são brancos e não vão abrir mão de colocar os seus amigos e parentes brancos a benefício de um negro ou negra que, aliás, não têm nem a quem pedir porque os "seus iguais" estão na mesma situação de penúria. A propósito o STF determinou a demissão de parentes nos gabinetes públicos. Vamso conferir quantos negros se enquadram nesses casos? A conclusão é simples, não é. Então, está na hora de tirar as máscaras e deixar de transferir o problema racial para os negros pelo simples fato de quererem estes o direito constitucional de igualdade de acesso às universidades. Esses mesmos críticos não se atém às cotas econômicas - reais, porém não institucionalizadas formalmente - que permitem que o cidadão aquinhoado financeiramente freqüente um curso preparatório cariíssimo e vá disputar vaga nas universidades públicas "em igualdade de condições" com os miseráveis alunos das escolas públicas miseráveis, destruídas pelo interesse econômico dos donos de escolas que fazem ou passam a fazer a política pública de ensino e educação.
Ora, se as cotas não resolvem, o que resolve então? Onde estão as soluções que nunca foram apresentadas nem mesmo dentro deste debate de cotas? Onde estão os antropólogos e doutores resistentes às cotas que não observam o quadro geral de penúria do povo negro nem oferece alternativa de solução eficaz? Quando as cotas forem soterradas - estão caminhando para isso as discussões - todos recolherão seus flaps e silenciarão como aeronave no pátio de suas satisfações atendidas. O fato é que as cotas são como o império da lei que não precisaria existir se todos cumprissem com o seu dever. Os poderosos estão de costas viradas para o problema porque é cômodo não se ocuparem das dificuldades alheias que "não lhes pertence" - mesmo que sejam representantes do povo - mas têm que estar atentos para não verem diminuídos o quinhão que julgam lhes caber na divisão do bolo social e no pagamento do débito para com aquele negro que um dia foi enjaulado em um navio negreiro para produzir riquezas nas terras brasileiras, sob os auspícios de chibatadas,humilhações e mutilações físicas e morais (e aí não havia o quesito raça porque negro não era gente!!! E continua não sendo, talvez para muitos.)e viver na miséria eterna como verdadeiros "párias do estigma branco" como se nada merecesse pelo sacrifício a que fora submetido. É, sim, um resgate da dignidade da raça negra tal como aqui chegou e se mantém pela visão social. Se antes existia raça para ser sacrificada, porque agora não existe mais? Então vamos rever a história e ao revê-la daremos de cara com a dura realidade de que a supremacia branca deste nosso País é quem fez e faz a implementação do racismo em nossas terras brasileiras. Não são as nossas cotas...
Portanto, é hora de se ter vergonha na cara e discutir as cotas como elas merecem ser discutidas: com respeito, com conhecimento de causa, sem interesse pessoal ou subliminar inconfessável, sem cooptação de idéias de potenciais negros ou negras revivenscendo o escravagismo das migalhas e sem medo de se descobrir o potencial intelectual da negritude que não quer nada além do que lhe é devido, sem pensar em inversão dos papéis até então vividos por eles. O negro quer igualdade e fraternidade entre todos, mas é preciso a mudança dos perfis humanos e antropológicos vigentes de alguns profissionais do ramo.
Vejam, senhoras e senhores, as bancas de advogados, os plenários de discussões de questões públicas, as fotos oficiais, os quadros dos oficiais generais nos desfiles de 7 de setembro, os personagens de novelas e apresentadores de programas de TV, Palestrantes de qualquer jaez e identifiquem a cor deste "Brasil miscigenado". Se restar dúvida, por questão de miopia da conveniência, visite os presídios e observe o uso das algemas policiais. E se continuar existindo dúvida, peça a um policial para identificar o bandido que ele indicará um negro, ainda que este tenha sido a vítima.
Cotas são meio e não fim!
O tempo foi suficiente para que a mudança viesse pelos meios até então disponíveis. Se não vieram; se não promoveram... cotas neles!!!
Axé!!!
Joel de Oliveira
Brasília/DF
Obs:
Em um Parlamento em que uma parlamentar se escandaliza por ser chamada de feia e se sente ofendida, repudiar as cotas é no mínimo hilário. Mais hilário ainda quando alguns pseudo-negros(?) se manifestam contra as cotas por não serem solução e por "diminuírem(?)" os negros pois estes não sabem o que é somar nem diminuir. Estes ganham espaço na mídia. Por quê será???
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